A borboleta
Quando o açúcar elaborado nos talos surge no fundo das flores, como em xícaras mal lavadas - um grande esforço se produz em terra donde as borboletas imediatamente levantam vôo.
Mas como cada lagarta teve a cabeça vendada e enegrecida, e o torso definhado pela verdadeira explosão de onde as asas simetricamente flamejam. A partir de então a borboleta errática não pousa mais a não ser ao acaso de seu vôo,ou quase isso.Mecha volante, sua chama não é contagiosa. E aliás, ela chega demasiado tarde e apenas pode constatar as flores abertas. Não importa: comportando-se com um acendedor de lâmpadas, verifica a provisão de óleo de cada uma. Ela posa no alto das flores com os trapos desajeitados que carrega e se vinga assim da longa humilhação amorfa de lagarta ao pé dos talos. Minúsculo veleiro dos ares maltratado pelo vento como pétala supérflua, ela vagabundeia pelo jardim.
(Francis Ponge)
tradução de Ferreira Gullar

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