domingo, 21 de março de 2010

SENTINELA

teu jeito de elefanta contraído me angustia.
quem sou eu, quem és tu nessa manhã que se anuncia?
sentinela, minha nega, estou tomado pelo teu sentimento.
posso dizer que um elefante passa em mim.
com seu passo lerdo, um tanto tardo de ser.
quando tu assoas tua tromba, sentinela, me assombra.
quem não ficaria sem ar com o teu passar resfriado
com teu ventre que abrange o mundo paralisado?
sentinela. sentinela quem te deu esse nome bacana?
por que sais de manhã toda trêfega e sós voltas sei lá quando?
sentinela, esse jeito avoado de quadrúpede no cio me assanha.
alguns te chamam elefanta, outros aliá e todos tem razão
menos eu sentinela, menos eu que sou assolado pelo
teu sentimento.
por que não vieste a esse mundo, um walk talk, um disc man ?
assim poderia operá-la ou escutar hendrix quando quisesse.
mas não. vieste elefante e para escutar teu berro lancinante
teu ronco visceral, fico impassível como um hidrante.
vai, sentinela, vai !
cambaleante pelas tuas do rio. boa sorte. seja feliz. até logo.


[da revista Inimigo Rumor n. 17, 2005]

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