segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Soneto do Amor Obscuro

O que temo é perder o encanto exposto
em teus olhos de estátua, e assim o acento
que à noite, ao me tocar, põe-me no rosto
a solitária flor de teu alento.

Nesta beira onde é meu desgosto
ser um tronco sem ramas; e atormento-me
não tendo a flor, argila ou polpa a gosto
do íntimo verme de meu sofrimento.

Se em mim és tesouro se ocultando,
se és minha cruz e meu pesar molhado,
se sou o cão o teu solar guardando,

não tires o que é meu e me foi dado
e põe sobre teu rio, decorando-o,
folhas do meu outono alucinado

Federico García Lorca

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